
A BORBOLETA
(Humberto de Campos)
Vendo o céu limpo e calmo, e o sol brilhando
no alto azulado, trêfega e vadia,
vê-lo de perto, lépida, bailando,
quis a flava borboleta, um dia.
E abrindo as asas trêmulas e alando
o corpo frágil dentre a ramaria
rociada, as moitas e os rosais deixando
- qual uma leve pétala erradia -,
na onda do vento que a arrebata e anima,
rodopiando, festiva e tonta, pelas
vagas de ouro, e a ambalar-se altura acima,
- ei-la em busca do sol, de asas expertas,
julgando o louro apagador de estrelas
uma rosa de pétalas abertas.
E ei-la no azul. O sol, o azul tauxeia.
A luz gloriosa, numa loura chama,
se alastra. Uma harpa na amplidão gorgeia
as harmonias orfeônicas derrama...
E tudo busca a borboleta! Cheia
de amor e de ânsia, fulgurando, a trama
de ouro do sol a envolve; o vento ondeia,
e sopra, e, em festa, buliçoso, brama.
E ei-la vencida pelo sol que a embriaga
e a doura: envolta no fulgor faiscante
da luz que os vastos páramos alaga!
Tonta e perdida! enquanto o vento arpeja
e canta e sopra e a leva, e a luz, brilhante
e forte, a cega, e, num delírio, a beija!...

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